Quem se beneficia com os cortes de impostos corporativos estaduais?

Pesquisador responsável: Omar Barroso Khodr

Autores: Juan Carlos Suárez Serrato e Owen Zidar

Título original: Who Benefits from State Corporate Tax Cuts? A Local Labor Market Approach with Heterogeneous Firms

Localização da Intervenção: Estados Unidos (EUA)

Variável de Interesse Principal: Os resultados econômicos locais, incluindo população (N), salários (w), preços de aluguel (r) e número de estabelecimentos comerciais (E), permitem aos pesquisadores rastrear a incidência de mudanças tributárias sobre trabalhadores, proprietários de terras e proprietários de empresas.

Tipo de Intervenção: Alterações nas taxas de impostos corporativos estaduais e nas regras de rateio, que funcionam como choques nos custos das empresas locais.

Metodologia: A metodologia combina a modelagem econômica estrutural com a estimação empírica de forma reduzida, utilizando um sistema de equações simultâneas que captura a oferta e a demanda de trabalho.

Resumo

Em Suárez Serrato e Zidar (2016), os autores estimaram a incidência de impostos corporativos estaduais. Malgouyres, Mayer e Mazet‑Sonilhac (2023) identificam dois problemas: a omissão dos efeitos sobre a composição das empresas e a caracterização inconsistente dos custos de capital. Esta resposta corrige o modelo estrutural e as estimativas de incidência correspondentes. Os resultados revisados permanecem próximos aos originalmente reportados, embora alguns intervalos de confiança se ampliem. No modelo estrutural corrigido, a participação dos proprietários na incidência do imposto difere em 1,6 ponto percentual em relação à versão original (38,1% versus 36,5%). A participação dos trabalhadores é estimada em 35,0%, enquanto os proprietários de terras absorvem os 26,8% restantes.

  1. Problema de Política

A principal questão política abordada por Serrato e Zidar (2023) é determinar a verdadeira incidência econômica dos cortes de impostos corporativos estaduais — isto é, quem efetivamente arca com o ônus ou se beneficia dessas mudanças tributárias. Essa é uma questão central para a política fiscal estadual, pois define se tais cortes estimulam a economia local ou se funcionam sobretudo como ganhos inesperados para os proprietários das empresas. O estudo original (SZ, 2016) buscou quantificar quanto dos benefícios tributários é repassado aos trabalhadores via salários, aos proprietários de terras via valorização imobiliária e quanto permanece com os proprietários das empresas na forma de lucros mais altos. Esse impacto distributivo é essencial para o desenho de códigos tributários equitativos e eficientes.

O comentário dos autores levanta questões metodológicas importantes sobre a precisão dos modelos utilizados para estimar essa incidência. Ele identifica dois problemas. O primeiro é a “margem composicional”: cortes de impostos podem não apenas aumentar a lucratividade das empresas existentes, mas também atrair firmas menos produtivas, alterando a composição média e potencialmente distorcendo interpretações baseadas em dados agregados. O segundo é uma inconsistência no tratamento do custo de capital entre localidades, um elemento crucial para decisões de localização empresarial.

A resposta de SZ (2016) aborda a robustez dessas estimativas. Os autores reconhecem a validade conceitual das correções propostas, mas mostram que uma calibração simples — embora teoricamente correta — é altamente sensível aos dados e aos controles utilizados, produzindo resultados instáveis. Isso revela um desafio mais amplo em pesquisas de política pública: a necessidade de estratégias empíricas mais robustas. Para avançar, SZ introduzem novas estratégias de identificação em um artigo complementar, explorando diferentes momentos econômicos, como efeitos sobre demanda de trabalho e produtividade local, para estimar a incidência com maior confiabilidade.

Assim, o debate evolui da pergunta “quem se beneficia?” para “como medir isso com precisão e consistência para orientar políticas tributárias sólidas?”. Mesmo após incorporar as correções, os resultados continuam indicando que os proprietários das empresas capturam uma parcela significativa dos benefícios dos cortes de impostos corporativos estaduais.

  1. Contexto de Implementação da Política

Serrato e Zidar oferecem uma estrutura para avaliar a implementação de incentivos fiscais estaduais e locais usados para atrair investimentos. Governos frequentemente reduzem impostos corporativos ou concedem isenções com o objetivo de estimular o desenvolvimento econômico. A pesquisa examina se essas políticas realmente funcionam — e para quem. Ao medir a incidência sobre trabalhadores, proprietários de terras e proprietários de empresas, o estudo permite avaliar se tais incentivos melhoram o bem‑estar local ou se acabam beneficiando sobretudo empresários e acionistas.

A discussão metodológica destaca um desafio central: a necessidade de avaliações robustas. A “margem composicional” mostra que mudanças salariais agregadas podem ser enganosas, pois a entrada de empresas menos produtivas pode distorcer médias, mesmo quando trabalhadores existentes se beneficiam. Isso reforça a importância de monitorar não apenas o número de empregos, mas também sua qualidade e a composição das empresas.

Em conjunto, as conclusões indicam que a implementação eficaz de incentivos fiscais exige métricas detalhadas e acompanhamento contínuo para identificar seu impacto real sobre a economia local e seus beneficiários

  1. Método

Serrato e Zidar desenvolvem um modelo econômico estrutural para analisar como mudanças nos impostos corporativos estaduais afetam economias locais. O modelo descreve o comportamento de trabalhadores, empresas e proprietários de terras em diferentes localidades, reconhecendo que cada grupo reage às mudanças tributárias de forma a determinar a incidência final do imposto. A estrutura incorpora tanto as decisões de localização dos trabalhadores — influenciadas por salários, custos de moradia e impostos pessoais — quanto as decisões de localização das empresas — guiadas por lucros, impostos e custos locais.

Segundo os autores, um avanço central da versão corrigida é a modelagem explícita da “margem composicional”: cortes de impostos podem atrair novas empresas, muitas delas menos produtivas, alterando a produtividade média local e, consequentemente, salários e demais resultados econômicos. O modelo captura esse mecanismo ao vincular a produtividade média ao número de empresas na localidade, relação determinada pela dispersão da produtividade entre firmas.

O núcleo metodológico do estudo é um sistema de quatro equações simultâneas. A primeira descreve a oferta de trabalho, relacionando população a salários, custos de moradia e impostos pessoais. A segunda decompõe a demanda de trabalho em três margens: número de empresas, emprego por empresa e produtividade média. A terceira modela o mercado imobiliário, determinando como aluguéis respondem a mudanças populacionais e de produtividade. A quarta descreve a localização das empresas, mostrando como o número de estabelecimentos reage a salários, impostos corporativos e produtividade local.

Para estimar o sistema, os autores projetam choques de produtividade não observados em choques de Bartik observáveis, criando três fontes de variação: impostos corporativos, impostos pessoais e choques de Bartik. A solução do sistema gera formas reduzidas que mostram como cada choque afeta população, salários, aluguéis e número de empresas.

Por fim, a identificação explora o fato de que esses choques se propagam de maneiras distintas. Cortes de impostos corporativos atuam como choques de demanda por trabalho, permitindo identificar parâmetros ligados às preferências dos trabalhadores e ao mercado de moradia. Já cortes de impostos pessoais funcionam como choques de oferta de trabalho, identificando parâmetros relacionados à tecnologia das empresas. Ao observar simultaneamente os efeitos sobre os quatro resultados, o modelo recupera os parâmetros estruturais sem exigir dados diretos sobre produtividade ou preferências.

  1. Principais Resultados

A principal conclusão é que a incorporação das duas correções metodológicas propostas tem apenas um impacto quantitativo mínimo nas estimativas originais de incidência de SZ (2016). A participação dos proprietários de empresas na incidência de um corte no imposto corporativo estadual muda em apenas 1,6 ponto percentual, passando de 36,5% para 38,1%. As participações dos trabalhadores e dos proprietários de terras permanecem igualmente estáveis ​​em aproximadamente 35,0% e 26,8%, respectivamente. Isso demonstra que a conclusão central do estudo original é robusta a esses importantes refinamentos teóricos.

Os autores reconhecem que os intervalos de confiança em torno dessas participações na incidência permanecem amplos, indicando imprecisão estatística. Essa imprecisão motivou o desenvolvimento de novas estratégias empíricas em seu artigo complementar (Serrato e Zidar 2023a).  Ao incorporar dados adicionais e abordagens inovadoras que se concentram nos efeitos de forma reduzida sobre a demanda de mão de obra das empresas estabelecidas e a produtividade local, os autores conseguem estimar a participação dos proprietários de empresas com maior precisão, obtendo estimativas entre 52,3% e 61,9%.

Por fim, a principal conclusão que emerge tanto do modelo estrutural corrigido quanto das novas estratégias empíricas é que os proprietários de empresas arcam com uma parcela substancial da incidência dos cortes de impostos estaduais sobre empresas. Essa constatação se mantém em diversas abordagens metodológicas e confirma a percepção original de SZ: os cortes de impostos estaduais sobre empresas não são totalmente repassados ​​aos trabalhadores e proprietários de terras, mas, em vez disso, proporcionam benefícios significativos aos proprietários de empresas e acionistas. Isso tem implicações importantes para os formuladores de políticas que consideram os incentivos fiscais como uma ferramenta para o desenvolvimento econômico local.

  1. Lições de Política Pública

Este estudo oferece três lições essenciais para governos estaduais e locais. Primeiro, cortes de impostos corporativos não funcionam como estímulos diretos para trabalhadores e residentes. Como os proprietários de empresas capturam cerca de 40% ou mais dos benefícios, é preciso moderar expectativas de que incentivos fiscais se traduzirão principalmente em salários mais altos ou maior emprego local. Uma parte relevante da renúncia fiscal acaba beneficiando acionistas que muitas vezes nem residem na jurisdição.

Em segundo lugar, a pesquisa mostra que avaliar políticas apenas pelo número de novas empresas ou pelo crescimento agregado do emprego pode ser enganoso. Como os cortes tendem a atrair firmas de menor produtividade — a “margem composicional” — é fundamental considerar também a qualidade das empresas e dos empregos gerados, não apenas sua quantidade.

Por fim, o estudo destaca a necessidade de métodos analíticos robustos. Os amplos intervalos de confiança e a sensibilidade das estimativas revelam a dificuldade de medir com precisão a incidência tributária. Assim, decisões sobre política fiscal empresarial devem ser tomadas com cautela e baseadas em múltiplas fontes de evidência, o que exige maior capacidade de coleta e avaliação de dados para verificar se os incentivos realmente cumprem seus objetivos.

Referências

Malgouyres, Clément, Thierry Mayer, and Clément Mazet-Sonilhac. 2023. “Who Benefits from State Corporate Tax Cuts? A Local Labor Markets Approach with Heterogeneous Firms: Comment.” American Economic Review 113 (8): 2270–86.

Suárez Serrato, Juan Carlos, and Owen Zidar. 2016. “Who Benefits from State Corporate Tax Cuts? A Local Labor Markets Approach with Heterogeneous Firms.” American Economic Review 106 (9): 2582–2624. Suárez Serrato, Juan Carlos, and Owen M. Zidar. 2023a. “Who Benefits from State Corporate Tax Cuts? A Local Labor Market Approach with Heterogeneous Firms: Further Results.” NBER Working Paper 31206.