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Laboratório de Avaliação & Inovação em Políticas Públicas

16 mar 2022

ACESSO A CONTA POUPANÇA COM ZERO TAXAS TEM EFEITOS NA SITUAÇÃO FINANCEIRA DE FAMÍLIAS POBRES?


Pesquisadora responsável: Eduarda Miller de Figueiredo

Autora: Silvia Prina

Título do paper: Banking the poor via savings accounts: Evidence from a field experiment

Localização da Intervenção: Nepal

Tamanho da Amostra: 1.118 domicílios

Setor: Financeiro

Variável de Interesse Principal:  Ativos monetários, ativos não-monetários e ativos totais

Tipo de Intervenção: Oferta de conta poupança com custos de transação mínimos

Metodologia: Experimento aleatório

Famílias pobres muitas vezes não possuem acesso à serviços financeiros formais, como uma conta poupança, sendo necessário adotar estratégias alternativas caras e de maior risco para guardar dinheiro. Ao realizar um experimento aleatório com famílias pobres das favelas do Nepal, observou-se que o acesso a uma conta poupança com custos de transação mínimo, ou seja, zero taxas e proximidade física de uma agência bancária local, pode ajudar as famílias pobres a administrar melhor seus recursos. Portanto, sugere-se que as contas de poupança básica afetam positivamente o comportamento dessas famílias.

  1. Problema de Política

Pobres estão dispostos, são capazes de economizar, mas não tem acesso a contas de poupança ou serviços bancários de qualquer tipo (Demirguc-Kunt e Klapper, 2012). Assim, economizam de maneira informal, ou seja, guardam dinheiro em casa, compram gados e bens duráveis (Rutherford, 2000; Dupas e Robinson, 2013).  A literatura vem pontuando, também, que fornecer acesso a serviços financeiros para os pobres, parece aumentar a renda e reduzir a pobreza (Aportela, 1999; Bruhn e Love, 2009).

O objetivo da autora neste estudo era examinar o impacto de oferecer uma conta poupança com custos de transação mínimos, ou seja, zero taxas e alta proximidade de uma agência bancária. Já que, conforme a literatura, diminuindo os custos de transação e melhorando a confiança nas instituições bancárias, ocorre o aumento do uso por famílias pobres de produtos para guardar dinheiro (Karlan et al., 2014).

Uma comparação do recurso da conta de poupança com as contas oferecidas em outras intervenções, demonstraram que as famílias pobres parecem valorizar um produto de economia que está associado a baixos custos de transação. A distância da agência bancária foi mencionada por Brune et al (2014) como uma das razões pela baixa utilização do uso de uma conta poupança. Além disso, Banerjee e Duflo (2011) sugerem que taxas altas também desencorajam o uso.

  1. Contexto de Implementação e de Avaliação

O acesso financeiro formal no Nepal é muito restrito, onde 26% das famílias têm uma conta bancária. Esse acesso está concentrado nas áreas urbanas e ricas. Os principais motivos relatados na pesquisa nacional para a falta de conta bancária são os custos de transação, distância de instituições bancárias e procedimentos complicados de depósito e saque. Apenas 37% das famílias que tiveram uma conta e tiveram economias no ano anterior declararam que haviam depositado dinheiro na conta (Ferrari et al., 2007).

O experimento ocorreu em 19 favelas do entorno de Pokhara[1], que ficam na periferia da cidade ou em áreas semirrurais e rurais, estando mais distantes.  Apenas 17% dos domicílios da amostra utilizada no estudo têm conta em banco. As famílias presentes na amostra ganham, em média, $3 por dia. 18% da amostra eram membros de alguma Associação de Poupança e Crédito Rotativo (ROSCAs)[2] e 54% pertenciam à alguma instituição de microfinanças ou cooperativa de poupança no início do estudo.

  1. Detalhes da Política/Programa

Uma linha de pesquisa de base foi realizada em maio de 2010 em cada localidade, com todas as mulheres entre 18-55 anos participantes da pesquisa, totalizando 1.118 famílias. Tanto na pesquisa inicial, quanto na pesquisa final em junho de 2011, havia informações sobre despesas famílias para auxiliar na compreensão do papel desempenhado pelos fatores de oferta e demanda na explicação da aceitação e utilização da conta.

Também foram utilizados dados administrativos do banco GONESA, que é uma organização não-governamental (ONG) que opera na área estudada, sobre o uso de contas poupança. Tais dados incluem data, localização da agência, quantidade de cada depósito e retirada e o motivo da retirada de todas as contas do grupo de tratamento.

As famílias que estão na amostra são altamente vulneráveis à choques, onde 41% das famílias indicaram ter tido choque negativo na renda externa durante o mês anterior e 43% lidaram com empréstimos, sendo 17% da família e amigos, 17% de um agiota e 9% de outras fontes.

  1. Método

Do total de domicílios que foram incluídos na pesquisa, 567 mulheres foram aleatoriamente designadas para o grupo de tratamento, recebendo a opção de abrir uma conta poupança em agência bancária local. Ao grupo de controle não foi dada esta opção.

A amostra inclui, portanto, famílias com chefes femininas que possuíam, em média, 37 anos. Em média, possuíam menos de 3 anos de escolaridade, 90% dos entrevistados eram casados ou moravam com o parceiro e o tamanho médio das famílias era de 4-5 pessoas. A renda familiar semanal era, em média, de cerca de US$ 24.

Portanto, dos 1.118 domicílios incluídos na amostra final e dos 567 que tiveram a oportunidade de abrir uma conta poupança, 84% abriram a conta e 80% utilizaram ativamente. Onde considerou-se usar ativamente o fato de ter pelo menos 2 depósitos no primeiro ano após a oferta da conta.

Foram estimados os efeitos de intenção de tratar (ITT), onde as principais variáveis dependentes são os ativos monetários, ativos não-monetários e ativos totais. Foram inclusas algumas características básicas para controle e efeitos fixos de aldeia porque a aleatorização ocorreu dentro da aldeia.

  • Principais Resultados

Os resultados demonstraram que a aceitação e o uso ativo da conta estão positivamente relacionados a ter uma conta bancária e negativamente relacionados à obtenção de receita de uma atividade empreendedora. Ademais, a maioria das transações feitas durante o período de estudo foram os depósitos, onde o valor médio depositado em uma semana era cerca de 8% da renda familiar média semanal.

O banco de dados administrativos demonstrou que os principais motivos para retirar dinheiro eram para pagar uma emergência de saúde (17%), para comprar alimentos (17%), para pagar uma dívida (17%), para pagar taxas escolares e materiais (12%) e para pagar despesas de festival[3] (8%). Os resultados das estimações demonstraram um efeito positivo de obter acesso a uma conta poupança em ativos monetários.

Foi estimado o efeito médio de ter sido atribuído ao grupo de tratamento na quantia gasta pelo agregado familiar com despesas de saúde, educação, carne e peixe, festivais e cerimônias, dotes e outras despesas. Os resultados demonstraram que o acesso financeiro tem um efeito positivo e estatisticamente significativo sobre as despesas com educação, carne e peixes e festivais e cerimônias. Onde as famílias do grupo de tratamento apresentaram um gasto, em média, de 20% a mais em educação do que as famílias do grupo de controle. Ademais, os resultados das regressão mostraram investimentos mais altos em capital humano para o grupo de tratamento do que para o grupo de controle.  

  • Lições de Política Pública

  No geral, se for concedido acesso a uma conta básica com custos de transações mínimos, as famílias pobres a usam com alta frequência. Onde o acesso a uma conta de poupança parece ajudar as famílias pobres a gerenciar melhor os seus recursos, assim, melhorando a sua situação financeira.

Referência

PRINA, Silvia. Banking the poor via savings accounts: Evidence from a field experiment. Journal of development economics, v. 115, p. 16-31, 2015.


[1] Segunda maior cidade do Nepal.

[2] Rotating Savings and Credit Associations (ROSCAs).

[3] Teej festival; Dashain festival, Tihar festival, Maghe Sankranti, Ano Novo de acordo com o calendário do Nepal e Dumji festival.

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