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Laboratório de Avaliação & Inovação em Políticas Públicas

29 nov 2021

As restrições de circulação afetam o bem-estar da população?


Pesquisadora responsável: Eduarda Miller de Figueiredo

Título do artigo: COVID-19, LOCKDOWNS AND WELL-BEING:
EVIDENCE FROM GOOGLE TRENDS

Autores do artigo: Abel Brodeur, Andrew E. Clark, SarahFleche e Nattavudh Powdthavee

Tamanho da amostra: Varia de acordo com o termo de pesquisa

Localização da intervenção: Países da Europa e Estados Unidos

Setor: Saúde

Tipo de intervenção: Efeitos das restrições de circulação no bem-estar da população

Variável de interesse principal: tédio, contentamento, divórcio, comprometimento, irritabilidade, solidão,
pânico, tristeza, sono, estresse, suicídio, bem-estar e preocupação

Método de avaliação: Diferenças-em-diferenças

 

Problema de Política

A pandemia do COVID-19 exigiu de todos os países uma resposta rápida para salvar o maior número de vidas possíveis a curto e médio prazo. Para isso, a maioria dos países europeus e os Estados Unidos impuseram lockdowns aos seus residentes, conforme o guia de modelos epidemiológicos para conter a propagação do vírus (Ferguson et al., 2020).

Estas restrições de circulação geram efeitos no PIB, nos níveis de confiança nos governos, na escolaridade e no bem-estar da população. Os subprodutos do lockdown envolve o desemprego, isolamento social e a falta de liberdade, que são fatores de risco da saúde mental e infelicidade (Leigh-Hunt et al., 2017).

Contexto de Avaliação

Existem algumas pesquisas em andamento a respeito da evolução do bem-estar da população durante a pandemia. Entretanto, para avaliar totalmente este efeito há a necessidade de dados anteriores à pandemia e ao lockdown. Na maioria das pesquisas existentes, tais dados estão indisponíveis.

Para contornar este problema de dados, os autores analisam os dados do Google Trends entre 1° de janeiro de 2009 e 10 de abril em países que introduziram um lockdown total ao final do período. Visto que os indicadores de pesquisa do Google fornecem informações precisas e representativas sobre pesquisa de comportamento e sentimentos atuais dos usuários. Além disso, o Google Trends mostra medidas agregadas da atividade de pesquisa em um local e, portanto, é menos vulnerável a viés de amostra pequena (Baker e Fradkin, 2017).

Dessa forma, o artigo contribuiu com a literatura documentando os impactos da restrição social na saúde mental da população.

Detalhes da Política

Os dados do Google Trends fornecem uma amostra não filtrada das pesquisas realizadas no Google. Uma consulta de termo de pesquisa no Google Trends retorna pesquisas por um termo de pesquisa exato, enquanto uma consulta de tópico inclui pesquisa relacionada a termos, independentemente do idiota.

Logo, fornece um índice para a intensidade da pesquisa por tópicos ou termo de pesquisa ao longo do período em questão e em uma área geográfica solicitada. Esse índice varia de 0 a 100, onde 100 é o dia com mais pesquisas no tópico e 0 indica que um determinado dia não teve volume de pesquisa para o termo específico.

Nesta pesquisa, os autores utilizaram os seguintes termos de pesquisa de tópicos relacionados ao bem-estar entre 1° de janeiro de 2019 e 10 de abril de 2020: tédio, contentamento, divórcio, comprometimento, irritabilidade, solidão, pânico, tristeza, sono, estresse, suicídio, bem-estar e preocupação. Tais tópicos advém de diferentes itens do Questionário Geral de Saúde (GHQ)[1].

Portanto, os autores possuem uma base de dados destes tópicos para os países que introduziram um lockdown no final do período considerado, sendo eles: Áustria, Bélgica, Franca, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Portugal, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

Detalhes da Metodologia

Os dados diários de 2019 foram obtidos em solicitação separada dos dados diários de 2020. Portanto, os autores precisaram redimensionar as duas séries para um mesmo fator de escala da pontuação de 0-100, assim, podendo compará-las.

Para isso, primeiramente foi realizado o cálculo das respectivas ponderações de interesse de pesquisa semanais para todas as semanas do período, agregando para calcular a média semanal de pesquisas para o tópico no país c. A partir disso, foi redimensionado os dados diários para cada período separado multiplicando a média semanal de 2019 pelo peso de interesse de pesquisa semanal de 2019, repetindo o processo para o período de 2020. E, por fim, normalizaram os valores entre 0 e 100.

Supondo que, na ausência de lockdown, os comportamentos dos usuários do Google teriam evoluído da mesma forma que no ano anterior ao lockdown, os autores utilizam um estimador de Diferenças-em-Diferenças (DiD) para estimar o efeito conjunto da pandemia Covid-19 e lockdowns com pesquisas relacionadas ao bem-estar. Dessa forma, comparando as pesquisas pré e pós lockdown em 2020 para pesquisas pré e pós do mesmo período em 2019, garantindo assim que as mudanças sazonais dos países não estivessem por trás das descobertas. Como os efeitos psicológicos do lockdown podem ter começado a partir do momento que a política foi anunciada ao público, os autores consideram como “data do lockdown” a data em que a restrição foi anunciada.

No modelo de DiD, os autores utilizaram como variável dependente os tópicos de pesquisa do Google relacionados ao bem-estar, incluindo efeitos fixos de país, estado, ano, semana e dia.  Ademais, também foi controlado o número defasado de novas mortes por Covid-19 por dia por milhão no país ou estado.

Para testar a quebra estrutural imediata causada pelo bloqueio, o estudo também realiza uma Regressão de Descontinuidade (RDD), para identificar quebras potenciais em duas séries – pré e pós lockdown. Onde a variável dependente é a distância absoluta em dias do anúncio do pedido de “fique em casa”: negativo para os dias anteriores e positivo para os dias posteriores. Assim, a data do anúncio real ou contrafactual é definida como dia zero.

Resultados

As pesquisas por “tédio” na Europa tiveram um aumento acentuado em torno da data do anúncio em 2020, enquanto nos Estados Unidos, que começou o lockdown posteriormente, essa busca começou 10 dias anteriores ao anúncio. Este padrão só foi observado em 2020, não havendo nenhuma alteração brusca no mesmo período em 2019.

Também foi possível observar um aumento notável após o lockdown na procura por “solidão” na Europa, o que não foi observado nos Estados Unidos. Por outro lado, em ambos tiveram um aumento da pesquisa por “tristeza” em torno de uma a duas semanas após o lockdown.

A estimação do Diferenças-em-Diferenças demonstra que a variável do lockdown produziu um aumento significativo na intensidade de busca por “tédio” em ambos os locais, sendo este aumento significativo à 1%. Também foi observado um aumento significativo nas buscas por “solidão”, “preocupação” e “tristeza”.

Outro resultado observado foram as quedas estatisticamente significativas em “estresse”, “suicídio” e “divórcio” em ambas as localidades. Entretanto não foi encontrado nenhum efeito no “sono” nos países da Europa. Em relação ao tema “bem-estar”, os resultados divergem entre as localidades. Nos EUA observou-se um efeito positivo na intensidade da pesquisa relacionada ao tema, mas na Europa teve um efeito negativo.

Quando os autores dividiram a Europa em lockdowns antecipados e tardios, no qual o tardio é composto por Irlanda, Portugal e Reino Unido, encontraram um efeito positivo no bem-estar relativo ao grupo tardio. Assim, observaram que o efeito do lockdown em medidas de bem-estar é frequentemente mais positivo em países com lockdown tardio. Assim, aqueles que entraram em lockdowns tardios podem ser menos estressados, mas os benefícios de saúde pública foram observados mais fortemente nos países que entraram num lockdown antecipado.

Os resultados da Regressão Descontínua (RDD) demonstraram que o efeito imediato do lockdown é o aumento das pesquisas por “tédio” e “comprometimento” e redução da busca por “pânico”. Entretanto, houve pouco impacto de curto prazo sobre “estresse”, “tristeza”, “suicídio” e “preocupação”.

Lições de Política Pública

Apesar da necessidade exposta pelos governos de que a sociedade precisa ficar em casa para salvar vidas, a evidência sugere que a saúde mental das pessoas tem sido afetada durante as primeiras semanas de lockdown. Portanto, fica explícito a necessidade de enfatizar os benefícios do lockdown para a saúde da sociedade, certificando de que haverá o apoio apropriado para ajudar aqueles que mais lutam com o bloqueio que, segundo Oswald e Powdthavee (2020), começa com as gerações mais jovens.

 

Referência

BRODEUR, Abel et al. COVID-19, lockdowns and well-being: Evidence from Google Trends. Journal of public economics, v. 193, p. 104346, 2021.

[1] General Health Questionnaire (GHQ).

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