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Laboratório de Avaliação & Inovação em Políticas Públicas

03 ago 2021

Qual a relação entre educação e poderio militar?


Pesquisador responsável: Adriano Valladão

Título do artigo: EDUCATION AND MILITARY RIVALRY

Autores do artigo: Philippe Aghion, Xavier Jaravel, Torsten Persson e Dorothee Rouzet

Localização da Intervenção: Conjunto de países

Tamanho da Amostra: 3.140 observações

Setor: Educação

Tipo de Intervenção: Relação entre educação e ameaça militar

Variável de Interesse principal: Matrículas no ensino primário

Método de avaliação: Avaliação Experimental (RCT)

Problema de Política

Quais os motivos que levam os países a fazerem reformas educacionais em massa? Uma das explicações se dá pela sua relevância para a área militar. Educação em massa seria importante para unificar a multiplicidade de dialetos falados em uma mesma região, promoveria um conjunto de princípios morais e de disciplina, ensinaria habilidades básicas de leitura e compreensão, além de transmitir valores patrióticos.

Contexto da Avaliação

Os exemplos históricos de França, Japão e China permitem ilustrar a relação entre educação e gastos militar, além de ressaltar o papel de democracias e autocracias no processo de abrangência educacional.

França: Em 1870, os investimentos em educação se davam na esfera privada e religiosa, estando defasados em relação a Prússia e outros países europeu. Após a derrota na guerra para a Prússia que culminou no fim do Segundo Império, uma das explicações levantadas foi superioridade das escolas e universidades prussianas. Formou-se um consenso que o sistema educacional francês deveria ser reformado, o que aconteceu na década de 1880. O custo das matrículas nas escolas públicas de ensino primário foi zerado, tornou-se obrigatório a matrícula de crianças entre 6 e 13 anos, construiu-se mais escolas e pavimentações para facilitar seu acesso. Isso resultou no aumento do número de matrículas, a alfabetização saltou de 80% para 96% da população e no crescimento do sentimento patriótico.

Japão: Até meados do século XIX, o Japão era governado por shoguns e a educação era privilégio dos samurais. Na metade da década de 1850, a ameaça ocidental sobre a soberania do país catalisou mudanças estruturais resultando em uma guerra civil com os insurgentes tomando controle em 1868. A mudança que se sucedeu na educação tinha como objetivo modernizar a sociedade japonesa e se baseava em valores ocidentais tal qual a escolaridade em massa como fonte de poder econômico e militar.  Entre as medidas estavam a introdução de um sistema compulsório de ensino primário a todas as crianças, o aumento do número de escolas e o treinamento de professores. Apesar de uma resistência inicial a mudança, que talvez tenha sido pela ausência de democracia, as matrículas no ensino primário se tornaram praticamente universais e a taxa de alfabetização saltou de 35% para 75% e de 8% para 68% para homens e mulheres, respectivamente.

China: Na primeira metade do século XIX, a situação chinesa era semelhante à japonesa quanto a ameaça militar de perda de soberania para as nações do ocidente. Apesar de reconhecerem a tecnologia, as armas e a educação ocidental, havia a noção que uma reforma radical afetaria a hierarquia social existente. Por isso, adotou-se reformas educacionais graduais tentando incorporar o conhecimento estrangeiro por meio de tradução de livros e treinamento de engenharia nos países ocidentais. Uma derrota para o Japão em 1895 acelerou mudanças institucionais e reformas, criou-se a Universidade de Pequim com foco em ciências que mudaria o sistema de normas vigentes e tinham-se planos para um sistema nacional de educação. Um golpe de estado conservador em 1898, contudo, barrou as mudanças em curso, ainda que elas tenham servido de base para outras reformas posteriores.

Detalhes da Intervenção

Os contextos históricos de França, Japão e China ilustram como a preocupação com incidentes militares pode afetar reformas na educação primária. Nota-se também a importância dos regimes políticos, comparando democracias com autocracias no sucesso das reformas. Na prática, para se estudar a relação entre eventos militares e reformas educacionais de maneira generalizada é preciso olhar os dados, coletou-se então informações anuais sobre 166 países entre 1830 e 2010. A educação foi medida pelo número de matrículas por 10.000 habitantes, já uma ameaça de guerra indicou se o país esteve em guerra nos últimos 10 anos ou não. Como essa medida pode acabar perdendo alguns conflitos, explorou-se também a ideia de rivalidade, que capturou o risco de um conflito armado, caso algum país tenha um rival de tamanho e força relevantes. A informação sobre o regime político veio da base Polity IV, em que cada país a cada ano recebe uma pontuação referente a competitividade e abertura do executivo. Além disso, outros elementos relevantes como gastos militares, tamanho da população, taxa de urbanização e PIB foram coletados.

Detalhes da Metodologia

Com todas as informações descritas acima, pode-se mensurar a relação entre eventos militares e escolarização em massa. A ideia desse exercício é que, ao adicionar todas as informações relevantes para o aumento do número de matrículas de um país, a relação desejada seja obtida sem incorporar os efeitos de outros fatores. Dado o objetivo da investigação, os dois parâmetros de interesse principal medem a relação entre o número de matrículas na educação primária dos países tanto com a iminência de uma guerra ou tensão militar quanto da interação entre a rivalidade militar e regime político.

Resultados

Os resultados apontam que o investimento em educação, medido pelo número de matrículas no ensino primário, tem uma relação positiva com a área militar, seja quando esta é contabilizada por participação em guerra nos últimos 10 anos ou quando é medida pela rivalidade ou iminência de um conflito armado. Além disso, tem-se que o investimento em educação é negativamente correlacionado com a democracia, porém tais investimento respondem de maneira mais rápida a ameaças militares na democracia.

O motivo para se investir em educação era o de uma população com maior escolaridade ter soldados mais efetivos em uma guerra. Para analisar essa hipótese, nota-se pelos dados que ter uma rivalidade militar e um número maior de matrículas no ensino primário aumentam a chance de entrar e de ganhar uma guerra nos próximos 10 anos. Esses resultados corroboram a ideia de educação em massa estar relacionada com exércitos mais efetivos.

Por fim, ressalta-se que conflitos militares existiram durante muito tempo sem qualquer implicação para a educação em massa, porém o advento da revolução industrial e o desenvolvimento da tecnologia armamentista mudaram essa necessidade. Ao avaliar o papel da indústria, obtém-se que a dinâmica entre gastos militares e educação é de fato positiva para os países com um nível mínimo de industrialização. O desenvolvimento da tecnologia de guerra trazido pela revolução industrial sugere uma maior importância aos soldados escolarizados, reforçando o papel da aquisição de habilidades básicas.

Lições de Política Pública

Educação em massa e gastos militares estariam positivamente correlacionados ao ensinar habilidades básicas a soldados, promover disciplina em grupo e/ou proporcionar valores patrióticos. O estudo ensina que essa relação é de fato positiva, que a relação entre democracias e matrículas no ensino primário é negativa, mas que a educação responde mais fortemente a ameaças militares em democracias. Esses ensinamentos são válidos para as sociedades modernas em que o nível de industrialização está acima de certo limite. Ressalta-se, por fim, que tal correlação não deve ser vista como causalidade, assim como maior educação geraria maior valor militar, poderia ser o caso de a busca por poder militar incentivar uma maior escolaridade.

Referência

Aghion, Philippe; Jaravel, X.; Persson, T.; Rouzet, D. “Education and military rivalry.” Journal of the European Economic Association, v. 17, n. 2, p. 376-412, 2019.

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